Imagem capa - Magnum Photos e as fotos das Prostitutas Adolescentes por gilson lorenti
Fotografia

Magnum Photos e as fotos das Prostitutas Adolescentes

Semana passada um turbilhão digital atingiu a Magnum Photos, a agência de imagens que funciona como uma cooperativa de fotógrafos e foi fundada em 1947 por grandes nomes da fotografia como Cartier-Bresson e Robert Capa.  A agência possui boa parte de seu acervo histórico á venda em seu site para o público em geral. É uma oportunidade do público em geral possuir em sua casa imagens icônicas de grandes momentos do fotojornalismo mundial e da arte fotográfica em geral. Porém, é perigoso mexer com o passado com os olhos do presente.


Andy Day, editor do site fstoppers, descobriu imagens bem perturbadoras em uma pesquisa no acervo da Magnum on line. Ele achou uma série fotográfica feita pelo renomado fotojornalista David Alan Harvey retratando a vida e o cotidiano de trabalhadoras sexuais (prostitutas) em Bangkok. As imagens mostram as moças em seus trajes de trabalhos nas ruas e, parte das fotos, mostra as mesmas em suas casas e locais de atendimento. Algumas imagens mostram as moças seminuas e até tomando banho em uma banheira. Esse tipo de imersão na vida da pessoa retratada é muito comum nos trabalhos fotojornalísticos que possuem por objetivo mostrar o dia a dia de um grupo específico. O problema principal é que, pelas imagens, percebemos que a maior parte dessas trabalhadoras sexuais não possuem 18 anos de idade. Claro que Andy Day trouxe a discussão sobre essas fotos para a internet e a coisa explodiu.


Pelo olhar de hoje, essas fotos são uma aberração. Segundo o ponto de vista das pessoas que estão criticando a Magnum e o autor das fotos, uma menor de idade não pode ser chamada de trabalhadora sexual, pois ainda não tem idade para decidir sobre isso. No caso, o que temos é exploração infantil. E, do ponto de vista legal, a maior parte das leis atuais proíbe esse tipo de exposição e exploração de imagem de uma menor de idade. Concordo que menores de idade devem ser protegidas de exploração sexual, mas podemos tapar o sol com a peneira? 


As fotos de David Alan Harvey foram feitas no começo da década de 1980, uma época muito diferente do que agora. E acima de tudo, é um trabalho jornalístico que visa retratar uma realidade. Hoje, tais fotos são históricas e são a prova viva de uma prática que era normal (e ainda é em alguns lugares, inclusive no Brasil) sobre o trabalho sexual de mulheres menores de idade. Julgar o passado com os olhos do presente é muito fácil, mas errado. 


A Magnum sentiu a pancada e retirou todas as fotos desse trabalho de seu acervo. Pior, eles decidiram barrar o acesso do público à todas as suas fotos para que seja feita uma análise de conteúdos que possam ser sensíveis aos olhos e percepções atuais. Eu gostaria que isso não fosse um pretexto para censurar um passado que possa ser inconveniente, mas segundo a presidente da agência Olivia Arthur é apenas uma adequação.


"Não queremos descartar ou subestimar o papel dos fotógrafos (tanto histórica quanto atualmente) de sair pelo mundo para documentar importantes questões globais, políticas e sociais. Como documentaristas, meus colegas registram e comentam questões globais há quase 75 anos. Nesse período, evoluíram os padrões do que era aceitável. Questões que antes eram esquecidas devem ser abordadas. Isso é uma coisa boa. Com esta revisão do arquivo, não queremos desfazer o trabalho histórico, mas nos certificamos de que entendemos todas as considerações éticas. Alguns casos serão claros, outros não serão decisões fáceis, cheios de zonas cinzentas." 


Acho que toda empresa tem que se precaver em momentos como esse. Mas, apagar o passado inconveniente pode ser perigoso também. Alguém decidir que é melhor desaparecer com tudo o que é negativo para a humanidade é o caminho certo para repetir erros.