Imagem capa - Fotografia -  um veículo de violência baseada em gênero por gilson lorenti
Fotografia

Fotografia - um veículo de violência baseada em gênero

O título desse texto pode ser polêmico, mas ele me levou a uma reflexão interessante sobre fotografia e direito de imagem. Essa reflexão é baseada em um texto publicado no site do jornal Daily News de Nova Iorque. O título do texto é "Quando sua fotografia me prejudica: Nova Iorque deve procurar conter a fotografia não consensual de mulheres", e foi escrito por Jean Son, uma moradora da cidade que se diz preocupada com a exploração da imagem feminina por fotógrafos de rua. 


Para quem não sabe, a fotografia de rua é uma das categorias mais importantes dentro da arte fotográfica. Homens e mulheres se dedicam a fotografar o dia a dia das ruas das cidades ao redor do mundo. Esse tipo de fotografia nos brindou com artistas incríveis como Garry Winogrand, Bruce Gilden, Bill Cunningham e até mesmo Cartier Bresson e os seus colegas da agência Magnun. Mas, uma coisa está presente em quase toda fotografia de rua executada nas grandes e pequenas cidades: pessoas. E essas pessoas, que são representadas nas fotos, não fornecem suas autorizações para uso de suas imagens, pois na maior parte do mundo civilizado não existe proibição para fotografar em locais públicos.  


Jean Son alega em seu texto que por três vezes (que ela tenha percebido) foi fotografada por fotógrafos homens na cidade de Nova Iorque e que, nessas três ocasiões, ela chamou a polícia para intervir e obrigar o fotógrafo a apagar suas fotos. Na cidade de Nova Iorque existe uma lei que proíbe qualquer um de fazer fotos de partes do corpo de alguém, como decotes ou saias, mas a fotografia geral de rua, mesmo que foque apenas uma pessoa, é liberada. E é isso que Jean Son reclama em seu artigo. Ela afirma que as mulheres são vítimas de homens que ficam nas ruas com suas lentes fazendo registros sem autorização. Para ela, fotografar alguém em público sem consentimento é algo violento e degradante. Por isso que afirma em seu artigo que a fotografia de rua é um veículo de violência baseada em gênero em locais públicos. 


Claro que o artigo da moça causou reações extremadas do mundo da fotografia nas redes sociais. Muitas críticas interessantes, como o fato de que esse tipo de violência também deveria ser cogitado para os homens, e outras simplesmente raivosas e sem conteúdo. Mas, temos dois fatos a serem considerados aqui. Sim, a fotografia de rua é muito importante, simplesmente pelo fato de ser um registro, uma memória, de nossa sociedade. Eu, particularmente, sempre gostei do contexto das pessoas e a ocupação dos espaços públicos. Isso não pode acabar e não pode ser silenciado. Porém, que existem pessoas mal intencionadas é verdade. Nem toda pessoa (e não estou falando só de homens) com uma câmera está pensando em fotografia como arte. O problema é saber quem vai decidir o que é arte e o que não é. Quem é bem intencionado e quem não é. Temos aqui o mesmo dilema das fotografias de nu nas redes sociais. Muitos fotógrafos questionam o fato de não poderem divulgar sua arte em redes famosas, mas como separar o que é arte do que seria apenas pornografia explícita? Perante essa dificuldade, o mais fácil é proibir tudo, o que não seria nada produtivo para a fotografia de rua. 


Nos Estados Unidos, os tribunais tendem a decidir em favor do artista em detrimento do direito de imagem, quando os mesmos conseguem provar a intenção de produzir uma obra artística. Vide casos onde fotos de pessoas na rua foram vendidas por valores estratosféricos em galerias de arte sem reverter nenhum centavo para os fotografados. Ou o caso do artista que pega fotos de Instagram de outras pessoas e transforma em quadros igualmente valiosos. Um caso famoso é do fotógrafo Arne Svenson de 61 anos, morador de Nova Iorque também. Ele passou vários meses fotografando o dia a dia de seus vizinhos sem o conhecimento deles, e montou uma exposição chamada The NeighborsO caso chegou até o tribunal que deu ganho de causa ao fotógrafo, pois, segundo a corte, a arte não exige qualquer consentimento para ser feita ou vendida. 


Jean Son afirma em seu artigo que está trabalhando junto com o vereador Jimmy Van Bramer em Nova Iorque para criar uma legislação de privacidade de imagens para tratar de casos parecidos com o dela. Talvez uma caça às bruxas contra fotógrafos de rua esteja começando. Espero que isso não aconteça. Muito da arte que está sendo produzida atualmente nesse segmento da fotografia vai desaparecer. Mas, não podemos afirmar que essas preocupações são totalmente infundadas, infelizmente.